sexta-feira, 30 de maio de 2008

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos,
Os meus sonhos agora são mais vagos ...
Como um divino vinho de Falerno!
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno ...

Pousando em ti o meu olhar eterno
E a Vida já não é o rubro inferno
Como pousam as folhas sobre os lagos ...
Todo fantasma triste e presságios!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-las!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?
... Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?
... O mundo, Amor!
... As nossas bocas juntas!


Florbela Espanca

Atitude

Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.


Cecília Meireles

A Uma Passante


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daquí! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

Charles Baudelaire